terça-feira, 9 de junho de 2015

15 de Março de 2015.

"O meu desafio é andar sozinho" – Sobre a dificuldade de ser uma garota solteira
Hoje eu acordei animada. Literalmente. Era mais que dez, mas quis enfrentar o sol e sair por aí.
Escolhi uma legging e uma camiseta cortada, o mesmo tênis de sempre. Roupa de gente que tenta levar uma vida mais saudável. Moro no centro da cidade, mas resolvi ir correr em uma rua bastante conhecida e utilizada para este fim. Com fones de ouvidos conversava com minha mãe pelo celular, próximo a um supermercado um garoto de uns 14 ou 15 anos ao passar por mim passou a mão no meu bumbum.
E agora eu vou falar de algo que eu nunca passei na vida: UM GAROTO PASSOU A MÃO EM MIM. É a coisa mais surreal que existe, ao olhar inconformada para trás ele me mandou um beijo ainda, quando comecei gritar e xingá-lo, e fiz em bom som, ele continuou andando e falou que foi sem querer. Juro, a minha vontade foi correr atrás dele e esmagá-lo. Não o fiz porque minha mãe no telefone ficaria desesperada. Mas eu queria fazer isso, ainda quero, quero apertar o pescoço dele, quero causar a ele uma dor física maior que a psicológica que eu sinto. Mas eu chorei, chorei muito, chorei por um garoto achar que tem este direito, por todos os machismos diários que eu sofro e que vejo outras mulheres sofrendo.
Sofro porque sei que muitas pessoas, inclusive mulheres, dirão que eu não deveria estar andando sozinha ou que o meu bumbum avantajado deveria estar coberto.
As pessoas realmente acreditam que uma mulher não pode se destacar, não pode ter um corpo legal, ser bonita, ser atrativa. Se você for alguém que chama atenção você vai ser agredida física e psicologicamente e as pessoas vão te fazer acreditar que o erro está em você.
Há uns dois dias eu tive que bloquear um cara que não entendeu que:
01. Estou solteira, mas quero ficar sozinha;
02. Não quero sair com ninguém;
03. Não quero nem encontrar alguém.
Afinal, EU conversei, EU dei lado, EU tenho que aceitar que isso é motivo para o cara achar que vai ter algo em troca.
O mundo é todo tosco, as pessoas não sabem mais conversar, se tratam mal e se você é educada e dialoga normalmente está abrindo margem para as pessoas acharem que você vai sair dando (sim, estou falando dando no sentido sexual mesmo) por aí.
Todos os dias as pessoas alimentam esse absurdo que é achar que o corpo do outro é violável e tem que estar sempre à disposição.
Uma amiga me dizia: Carla, você está sempre namorando porque é uma situação confortável, é mais fácil do que ser e se sentir solteira. E, infelizmente, ela estava certa. É muito mais fácil falar que eu tenho um namorado. Mulher nenhuma me olha torto, enciumada. Os caras entendem porque não os quero. Difícil é falar que eu tenho 26 anos, moro sozinha, faço agachamento igual uma louca pra dar um jeito no meu bumbum, que estou procurando um caminho que me faça feliz profissionalmente, mas que estou solteira, que não tenho alguém para me mostrar por aí, que não tenho alguém “sortudo”, entre outras coisas que já ouvi. Sou solteira e é minha culpa, tenho um corpo razoável e é minha culpa, chama atenção e é minha culpa, moro sozinha e sou uma desgarrada (mal sabem vocês o quanto amo e sou amada por aqueles que me tiveram), fui apalpada na rua e a culpa é minha, um cara foi abusivo na investida e é minha culpa. Sério, gente, até quando esta mentalidade tacanha fará parte da massa?
E eu ainda tenho que ver gente querendo indo às ruas falando que vai mudar o país. Como, se não conseguem nem melhorar internamente? O quintal tá todo sujo e querem limpar a nação. Quanta hipocrisia e prepotência.
O mais triste de tudo isso é que quanto mais eu conheço as pessoas, mais quero ficar sozinha. Menos acredito numa relação afetiva saudável.
Mas ainda gostaria de bater naquele garoto até que ele entenda que não tem direito sobre mim, nem sobre ninguém. E nunca mais repita isso, pois terá dor em resposta.
Que liberdade fingida vivemos, que mundo triste e escuro temos construído. No entanto, quanto mais difícil lá fora, mais fácil aqui dentro.

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